Quem toma uma garrafa de vinho, fala todas as línguas e idolatra a santidade dos vinhedos por onde caminhou, acordando num lugar ancestral, igual a meter-se no meio de jaconeiros e assistir a uma partida do Juventude. A cada vez que faço isto, saio do estádio sob o peso de uma embriaguez sentimental, mas morando no Rio há quase dez anos, tenho apenas a memória como amiga da minha solidão desportiva e nos fins de semana abro e fecho minha boca alternadamente como um peixe agonizante, eu não tenho de onde ir embora.
A vida é um território cheio de atalhos bifurcados e o mundo se organiza por estranhas arquiteturas. Distraído que sou, não quero afirmar ser o Juventude um território de atalhos com arquiteturas diferentes, mas sempre achei que as mãos humanas e mentes de arquiteto poderoso protegiam o Juventude. Foi lá que compreendi o que seja idolatrar vinhedos e respeitar os seguidores do arquiteto.
O homem precisa aprender com a derrota o caminho da vitória. Assim também um clube, uma torcida, os dirigentes. Quando pergunto a mim mesmo se já aprendi a navegar num mar de incertezas e vejo que a tripulação da minha alma é feita com a chusma dos sete mares, esta pergunta me custa mais a tragar que um purgante.
Depois de começarmos com um sonoro quatro a zero, acenderam-se em minha alma as peraltices das vitórias e eu espio as dobras deste escrito, quero ver outras e outras vitórias. Como torcedor, nenhum mal, o elenco é o mesmo que fez um bom Campeonato Gaúcho, adicionado de novos valores e esta minha expectativa eu não quero transformada em decepção que me esmague na arquibancada, mal me permitindo forças para argumentar. Pés no chão é obrigação do técnico seus auxiliares e principalmente dos atletas.
O passo da nossa montaria é vagaroso, num querer e não querer chegar, estes longos intervalos entre jogos servem para recuperar lesões, aprimorar o treinamento de jogadas, mas e o ritmo?
A filosofia só vive pela negação de verdades, tropo piu, tropo meno. O nosso treinador não possui um Manual de Operações do Juventude, melhor que ele seja iluminado. Ele e nós queremos ganhar.
Quando se lê um escrito da mesma maneira nos dois sentidos, temos um palíndromo e talvez o mais conhecido seja 'Socorram-me, subi no ônibus em Marrocos'. O título do presente texto é um destes fenômenos da língua portuguesa e nós temos de começar vencendo neste Campeonato, na Ida e na Frida. No nosso lago, nadamos nós, porque em garra ninguém nos vence e nos demais lagos temos de vencer para voltar à Série 'C', depois a 'B'...
Nos metemos em tais manejos e deles, pelas nossas forças e responsabilidades, temos de sair, não podemos fugir de um passado que existe, mesmo que nossa felicidade tenha de ser construída em cima da infelicidade dos nossos adversários.
O melhor fertilizante das vinhas são os passos do vinhateiro e a presença da torcida é uma espécie de palíndromo: empurra os jogadores e é impulsionada por eles. As uvas precisam ser observadas e acarinhadas pelo dono, a torcida enxergando garra, responde com carinho. Toda boa ação provoca uma reação virtuosa. Boa sorte para todos nós.
Estou condenado ao privilégio de ser juventudista, durmo sem dormir, um sono lúcido, um repouso estático, de respiração regular, sonhando aos pedaços, de rodada em rodada, neste campeonato que começa em 17 de julho, estou com a língua ainda preguiçosa pelo sono, voz de travesseiro, vou dizendo a mim mesmo: menos mal que não seja ressaca de insônia.
Os pequenos enredos que alinhavam umas às outras as vidas dos torcedores do Juventude, formam o pano do pavilhão verde e branco, da camisa com alma de guerreiro. O ferrete que marca no peito o estigma, a insignia redonda com gomos de 1.913, sinal distintivo de uma irmandade, será defendido pela equipe da tríplice fronteira e enaltecido por nós na arquibancada.
O Dr. Virvi Ramos contava uma história com muitas histórias, tinha uma só e muitas versões e com um sorriso de pura bondade perguntava-se, indagando ao interlocutor: o que há depois da matéria? A maioria, dizia o Dr. Virvi, vai para o destino de suas próprias crenças, inclusive aqueles que pretendem derrotar com a lógica, as convicções de que o espírito reassume a matéria. Ouvi esta história de muitas histórias de um homem sagaz e com leituras. Calei ante a serenidade, a sabedoria, a convicção do bom médico. Ele também condenou-se ao privilégio de ser juventudista. Não estará ele novamente entre a massa verde?
O apelido apaga o nome, é Papada e esconde Torcida do Juventude. Todos os seus integrantes, quando estão na arquibancada com fome de vitórias, tem a razão derrotada pela paixão, é o 'ponto de vista' nascido e criado no coração sem passar pelo cérebro.
Nas festas juninas os fogos de artifício estão barulhando, perseguindo tradições, mas o silêncio será de verdade violentado com os gritos de guerra da Papada no mês de julho, vamos tirar do sono por uma realidade-pesadelo os adversários quando irromperem nossos atacantes, a tríplice fronteira vai fazer as nossas vontades se multiplicarem como pães e peixes bíblicos e nestes domingos os inimigos de nossos inimigos serão nossos amigos, mas não ostensivamente, só no peito, vamos torcer por eles, 'secar', porque a vez deles também chegará.
É possível que só um torcedor do JU entenda outro Papo, não ser louco comum é ser fanático, concatenar idéias, ter crenças mais fortes que medos, possuírem 'pontos de vista', fazer um calafrio percorrer as costas dos adversários como uma lagartixa de patas frias e pegajosas. Se o nosso dialeto veneto ao cantar o 'Zé da Bica' parecia um latim de missa, era um pouco brincadeira saudável, diversão, mas por certo era um 'ponto de vista' que remetia os adversários a falar com seus fantasmas.
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